26 de abril de 2018

II Festival da Cultura Negra: poemas estudantis

Em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra, a Escola Estadual Avertano Rocha realizou, no dia 24 de novembro do ano passado, mais uma edição do Festival da Cultura Negra.

Andreyna Serrão da Costa, Carla Rubia Siqueira Braga, João Victor Pinheiro do Nascimento, Ludmila Paiva Carneiro, Matheus Messias Farias Machado e Sthefany de Souza Pereira, alunos da 1ª série do Ensino Médio Integral (EMI) em 2017, participaram com poemas em varal e declamações no pátio da escola.






POEMAS


LIBERDADE PARA SONHAR

Somos estrangeiros
Cercados pelo medo,
Com direitos escassos
Somos todos escravos.

Passa noite e dia
Sem nenhuma alegria.
Passo dia e noite
Com medo do açoite.

Faz tempo que não sei o que é alegria,
Pois em mim só há sofrimento e agonia.
Cansei de sonhar
Liberdade é algo que não posso alcançar!

Onde estás oh! divino
Quando procuram-te os teus filhos?
Onde estás mãe natureza
Para me libertar dessa tristeza?

Só queria me libertar
Dessas algemas e mordaças.
Quero enfim sonhar
Peço ao divino que venha me libertar.

Com orgulho e frieza
Mostram como é grande sua avareza
Sem esperança ou alegria
Somos aprisionados
Sem direito a alforria.

                    Andreyna Serrão da Costa



SOU FORTE

De minha terra fui arrancado
Dentro de um tumbeiro fui colocado.
Para o porão fui levado
E lá dentro fui humilhado e torturado.

Homens e mulheres todas acorrentadas
Como bichos aprisionados.
O céu nos abandonou
A mercê da própria sorte nos deixou.

Obrigados a virem para uma terra desconhecida
Onde sofremos noite e dia.
Não sinta pena de mim,
Os céus quiseram assim.

Sou forte, sou bravo
Não passarei o resto
Da minha vida, condenado.
A liberdade não é um sonho
E sim um objetivo,
Por ele não desisto.

Na roda de capoeira
Testo minha coragem e destreza.
Com esses golpes
Vou de defender
E através deles vencer.

O chicote pode até provocar
A minha morte!
Mas não vou deixar
O medo tomar conta de mim.
Seguirei firme e forte
Até o fim.

                    Carla Rubia Siqueira Braga



GRITO DE LIBERDADE

Correntes se arrastam pelo chão
Por ter a pele escura como carvão.
A noite de longe os gritos
Pedindo por liberdade
No lugar de castigo.

Quando o tambor tocar
A música vai começar,
Pedindo ao céu e a natureza
Com sussurros de tristeza
Que seu deus os proteja.

O céu me amaldiçoou.
Nessa terra me jogou
Onde nela saí escravo
E não tenho nenhum valor.

A natureza me abandonou
A mercê de animais imundos me deixou.
Para eles sou apenas escravo
E junto ao meu povo fui humilhado.

Todos gritam por liberdade
Cobertos pela sombra da maldade.
Nas bocas a mordaça
Na pele as marcas da brasa.

Peço ao céu que ouça
Meu grito de liberdade
E me liberte dessa maldade
Onde sou prisioneiro,
Cercado pelo medo.

Tinhas costas açoitadas
Já então marcadas
Pelo chicote que balança
Na mão do feitor,
Que aumenta ainda mais minha dor.

O sonho de liberdade vive em mim
Um dia toda essa maldade
Terá fim!

                    Andreyna Serrão da Costa
                    Carla Rubia Siqueira Braga



ILUSÃO DA LIBERDADE

Onde está escrito que ser negro é vergonha?
Somos filhos da mesma terra!
Vergonha mesmo é a maldade
Causada pela falta de amor da Humanidade.

Arrancaram-me os meus filhos
E ainda me vem como seu inimigo
Brancos malditos e seus açoites
Prendam-me na senzala
Dia e noite.

Cobertos pela ilusão de um dia liberdade
São todos aprisionados
Pela maldade da Humanidade.

Cobertos pela sombra do medo,
Que causa dor e desespero,
São condenados a permanecer
Como escravos.

Em uma terra de poucos saberes
O branco não pode ser o único
A ler e escrever e tão pouco vencer
Somos da mesma terra
Que diz pertencer.

A cor da minha pele
Não julga o meu caráter!

                    Andreyna Serrão da Costa
                    Carla Rubia Siqueira Braga



NEM AMOR, NEM PIEDADE

De minha terra fui tirado,
Trouxeram-me para esse lugar amaldiçoado
Onde sou escravo.
Aqui sou humilhado e castigado.

Sem amor e piedade
Arrancaram minha liberdade
Agora sobre mim
Predomina a sombra da maldade.

Seja dia ou noite,
Trabalho com medo do açoite
O feitor me vigia
Seja de noite ou de dia.
Eles roubaram minha alegria!

Que mal fiz para isso merecer
Caso não sou filho da mesma terra
Da qual você diz pertencer?
Deus perdoa esses homens
Que por trás do chicote
Se escondem.

Quando durmo vejo correntes.
Quando acordo sinto meu corpo dormente.
Não sou livre para sonhar
Muito menos para amar.

Já que para eles
Somos meros animais que nem
Sabem pensar!

                    Andreyna Serrão da Costa
                    Carla Rubia Siqueira Braga




BASTARDOS

Jamais derramei novamente
Aquelas malditas lágrimas
E aquelas terríveis lembranças,
Jamais voltarão a me atormentar!

Físico, psicológico, emocional
Tudo fez-me um grande mal,
Mas consegui paz.
Então, jamais voltarei atrás!

Eu quero uma canção
Dê-me aquela flor
De minha memória.
Quero tirar aquela imagem de dor
Imagem que deixou rancor.

Bastardos, idiotas!
Eu os odiei,
Mas lá em cima há perdão,
Há compreensão,
Há compaixão.

Encontrei a luz, fica no final do túnel.
Encontrei a paz, a que tanto desejei.

O meu coração despedaçado,
Agora é remendado.

                    João Victor Pinheiro do Nascimento




BLACK POWER

Eu sou, eu sou
Aquele preto do poder,
Poder este que eles adorariam ter.

Danem-se as desculpas
Eles disseram adeus,
Fugiram sem sentir culpa.

Apertei o gatilho da bondade,
Ferrei com eles, inclusive com a maldade.

Ouçam o que tenho a dizer,
Este é meu grito de guerra,
Expulsaram-me de minha terra,
Pois querem superioridade.

Não sou vadio
Nem coração vazio
Eu sou aquele preto do poder
Não há tempo para perder.

Dor, medo!
Eles disseram que mereço
Apenas por ser negro.

                    João Victor Pinheiro do Nascimento




PONTES

Sentimento obscuro
Sozinho neste escuro
Onde o sol não se faz presente
E o amor também é ausente.

Ah! Se o tempo voltasse
A bondade brilhasse
E o malvado repensasse.

O mundo não é belo
Nem sincero
Bem menos completo!

Eles criam muros, não pontes
Muros são barreiras, pontes são passagens
Muros são medo, pontes não deixam preso.

Não são belos como anjo
Nem boa música, com bem arranjo
És um maldito marmanjo.

Falsos ativistas,
Mentirosos,
Horrorosos extremistas,
Maldosos.

Os muros quebraram.
As pontes voltam a brilhar.

                    João Victor Pinheiro do Nascimento




REBELIÃO

Muito cuidado com eles!
Os mais próximos de você
Com o veneno que eles te alimentam
E o vodu que eles fazem.

Mas na rebelião
Há um pequeno brilho da verdade
Não fique aí parado.

Agora você encontrará na rebelião
Seu corpo terá vida
Eles não acreditarão no que irão ver
Porque agora você se rebelou.

Todos irão gritar,
Mas sua alma você não venderá.

Muito cuidado com eles
Se fazem de coitados
Mas estão a agir como retardados.

Tu terás na rebelião
Não te deixarão escapar,
Pois pensam que não tens coração.

Hipócritas!
Pensam que és motivo para chacotas
Por isso te marcaram as costas.

Coloquei-me na rebelião
De mim, jamais terão perdão!

Apenas tome cuidado!
Muito cuidado com eles
Os mais próximos de ti.

                    João Victor Pinheiro do Nascimento




RESSENTIMENTO

Eu não vejo borboletas
Enxergo morcegos!

Preso a este lugar nojento
Chão molhado e cimento
Eles estão cheios de raiva e aborrecimento.

São tão covardes
Desgraçados!
Não mostram as caras
Escondem a verdadeira face.

Apenas queria chances
Queria compreender.
Eu não tive tempo
Chegaram a me prender.

Lamento por eles,
Estes terão um fim,
Eu apenas digo sim!

Não há medo em mim,
Pois por mim houve raiva
Com ódio, eu os amaldiçoei.

Aquele rio de lágrimas secou
E o ressentimento ficou.
Agora há ressentimento,
Nós temos uma rixa.

                    João Victor Pinheiro do Nascimento




LAMENTO

Está feito!
Não tem mais jeito?
Só ouves meu lamento.
De um velho sedento.
Que deu tudo do grande nada.
Que nem possuía
Para viver de alegria.

Que alegria?
O sonho da utopia
Se tornou rosa vazia.
Não tem mais sonhos!
Nem desejos!
De um lindo berço.
De uma família.

Assusto-me com o espelho.
Quem é essa pessoa da areia?
Que me chega às veias.
Mas que sangue é esse?
Amargo e sentido
Pesado e perdido
Esqueci meu nome.

Que saudade do meu grande nada?

Quando o tinha.
Tinha tudo.
Um corpo astuto.
Minha liberdade.

Não era pássaro engaiolado.
Nem sopro enclausurado.
Excessivamente apagado.

Eu tinha sonhos.
Eu era alguém.
Que miserável eu, tornei-me!
Agora, só viajo.
Para um lugar distante.
Lá onde sou constante.

Me balançando na lua
Brincando de chuva
Onde eu desabo e levanto
Onde o som do meu canto
Alcança fronteiras
E minhas asas
Sobrevoam barreiras.

                    Ludmila Paiva Carneiro




MEU MUNDO INSANAMENTE APAGADO

Mais um dia sem você!
Obrigo-me a sobreviver!
Parando o tempo para ver
E tentar entender
Por que os anjos te roubaram daqui?
Será que se zangariam se me juntasse a ti?

Você disse que viria.
Por que ainda não está aqui?
Não te perdoarei pelo atraso.
Vou contar teus passos
E te elevarei aos astros
Lá você será punida.

Mal sabia eu
Naquele dia como breu
Que o coche negro da dor
Te levou e arremessou
Para um lugar sem cor
Tão distante do amor...

De repente, a câmera ficou lenta.
Senti meu corpo castigar
Mas não parava de pensar
Como você devia estar.
Eu queria gritar, socar e até implorar
Só queria mesmo não te ver chorar.

Cansei de tentar entender.
Quais motivos deviam ter
Para te entregar nas asas da morte.
E ascendendo a seu primeiro lar.

Não foi o destino que nos separou
Nem a sua cor,
Foi a falta de amor.
A falta de essência, de inteligência,
O preconceito.

Sem você, nada consigo fazer,
Não quero mais ficar aqui!
Espere-me, não demore a te alcançar
E no nosso mundo te amar
Com o último suspiro da minha alma
Estarei a te abraçar.

                    Ludmila Paiva Carneiro




SONHADOR

Como você
Eu vivo nesse mundão
Ando e respiro
Como qualquer cidadão.

Somos todos iguais
Sou acolhedor
Pessoas sorrindo e se entendendo
Me chame de sonhador.

Que mundo incrível
Não vejo apontador
Vejo apenas carinhos, abraços
E também vejo amor.

Pessoas unidas e cheias de laços
Que mundo encantador
E que seres abençoados.

A terra é como o céu
Um lugar para se amar
E nesse céu vasto
Todos podem voar.

Virei um sonhador
O pôr-do-sol novamente enxergar
Que coisa linda
E que lugar de se morar.

                    Matheus Messias Farias Machado




Mais uma noite na senzala!
Quantos serviços eu prestei?
Estou tão cansada
Que logo dormirei.

Amanhã mais uma vez
O sol virá de manhã
Cedo aquele maldito homem
Vem me soltar.

Para a Casa-Grande eu irei
E ali tudo limparei,
Mais uma vez não consigo entender
O porquê eles precisam de mim!

Todos têm braços e pernas
Por que eles não fazem por si?
Tiraram-me de tão longe
Para aqui eu os servir...

Não são dignos de tamanho perdão
Mas eu os perdoarei
Por mais que doa,
Eu ainda tenho um coração.

                    Sthefany de Souza Pereira




O que é a Escravidão?
Que simplesmente não
Teve a tal Abolição!
É algo injusto,
Desonesto e bruto.

Eles me impedem de amar
De viver, de sonhar,
Eu só quero me soltar
E fugir desse lugar
E nunca mais aqui pisar.

Minha família!
Quanta saudade eu sinto.
Minha mãe!
O quanto que chorou.
Meu pai!
Me abraçou,
Me olhou nos olhos
E me largou.

Mas eu nunca perderei
A esperança de encontrar
Tamanha abundância.
Eu um dia serei liberta
E minha família encontrarei.

E o amor que eu tive um dia,
De novo sentirei
E terei a liberdade
Que tanto sonhei.

                    Sthefany de Souza Pereira

27 de outubro de 2017

Alunos com vocação poética para o Festival da Cultura Negra

No dia 26 de outubro de 2017 houve a primeira reunião com os alunos da poesia Andreyna Serrão da Costa, Carla Rubia Siqueira Braga, João Victor Pinheiro do Nascimento, Ludmila Paiva Carneiro, Matheus Messias Farias Machado e Rafaela de Nazaré da Costa Barata. Todos são do Ensino Médio Integral (EMI) da Escola Estadual Avertano Rocha, em Icoaraci (Belém/PA).
A minha iniciativa partiu do convite da Profª Cilene Moraes, que atua na Biblioteca Escolar Prof. Benedito Sérgio Magina.
Os estudantes produzirão textos em versos sobre "O Trabalho Escravo". Os poemas serão apresentados em varal e recital durante o II Festival da Cultura Negra da escola, que acontecerá no dia 24 de novembro (Semana da Consciência Negra).
O grupo aumentará com a participação das turmas da profª Nádia Beatriz Damasceno.

Alunos (da esquerda): Ludmila Paiva, João Victor Pinheiro, Matheus Messias Farias e Carla Rubia Siqueira,
com os professores João Jorge Reis e Cilene Moraes.


22 de outubro de 2017

As Mulheres Choradeiras: o conto e o filme

Atividade realizada como oficina no Ensino Médio Integral da Escola Estadual Avertano Rocha.
Período e turmas;
28/08/2017 - 101
29/08/2017 - 104
30/08/2017 - 102
01/09/2017 - 103

CONTO

As Mulheres Choradeiras

Fábio Castro

Seguindo a rua na direção que saia dos ladrilhos e se torne terra, encontra-se as três casas, ruínas, casas das três velhas. Três mulheres que vão mais longe que os cento e oitenta anos possíveis a um ser humano. Três casas e o fim da rua. Ninguém vai mais longe e nem mesmo ali se quer ir. As três velhas e suas casas tortas, que se saiba, não tinham parentes. Possuíam uma horta de vegetais esquisitos que não se conhece se eram de comer ou eram de enfeitar. O que se dizia, embora com medo de dizer, é que o que comiam era carne de gente, mesmo, humana; a de dentro e a de fora. Eram verdadeiras górgonas, as três velhas. Mas disso só se dizia. De verdade, como saber? Só indo até lá para ver. Ver e guardar o visto só para si, pois dessa visão viria o problema de voltar de lá. Fora disso, para viver nos outros hábitos, para comprar e pagar contas, tinham elas o seu trabalho, a sia profissão. Eram profissionais coerentes e ordeiras. Tinham o trabalho lírico de chorar em velórios e enterros. Eram contratadas assim, de dramatizadoras, de choradeiras. Choravam em vários tons e timbres, faziam gestos e expressões faciais, rezavam musicadamente e suspiravam com certos intervalos. Disso viviam. Viviam chorando. Seu pranto emotivava, passeava no ambiente, fazendo novas lágrimas; todos diluviavam. Da justeza desse seu fazer elas economizavam os restos de seus ordenados para a impressão de um dia vierem a comprar um aeroplano. De sonho queriam, queriam tanto, voar. Seria de aeroplano que voltariam um dia ao seu planeta de origem. Seria. Agora, no ter do hoje de juntar dinheiro, a sua profissão de choradeiras trabalhando aos poucos. Pressa não tinham, o tempo passeava de acordo com a sua lenta biologia.

Eram esses seus afazeres.

As mulheres choradeiras, como de hábito lhes chamavam, pareciam não ter ambição de erguer seu escasso capital. Desprovidas de ambições, pessoas boas, mesmo que perigosas. Acumulavam dinheiro havia anos e ainda faltava o bastante para o preço do aeroplano. Estavam em atenção permanente de vigília, para o caso de aparecer um serviço. Se aparecia, corriam a oferecer seus préstimos. O preço módico e a qualidade do serviço, admirável. Ficavam encantados, os clientes, com a dedicação das velhas ao trabalho. Com a sua técnica perfeita, com os momentos máximos da união de todas as expressões do corpo, com a emotividade que despertavam nos presentes.

Seus fazeres eram cumpridos com afinco, e embora algumas pessoas lhes tivessem medo de virar comida, a maioria também lhes dedicava certo carinho, certa atração. O medo parecia ser injustificado, parecia. Nada de suspeito tinha seu lixo. Se comiam gente, mesmo, devoravam até os ossos, tudo. Mas isso era improvável, e tanto, que com o tempo nem mais se falava de dúvida sobre a antropofagia daquelas senhoras. Por um tempo não se comentou nada sobre seus hábitos, mas houve um dia que as suspeitas voltaram. As três casas, das três choradeiras, amanheceram cercadas dos familiares dum morto. O corpo sumira no velório da tarde anterior e suspeitavam que elas o haviam roubado. Um capelão vira três vultos puxando pela escadaria da igreja um objeto estranho, dentro dum saco de pano. Puxavam com certa dificuldade, pois era meio obeso o corpo. Decerto, suculento. Valeria aquele esforço. Além do mais, com a escada seria fácil rolá-lo até embaixo e pegar um táxi para casa.

No dia seguinte amanhecia a casa cercada dos familiares do homem sumido. Exigiam uma revista, senão, chamariam a polícia. Tinham de fazer o enterro e já quase se atrasavam. As velhas, no entanto, achavam um desaforo; não endossavam o boato de serem comedoras de carne humana, ainda mais ladras de velório. Fecharam as portas e janelas e armaram uma barricada. Veio a polícia. A defesa delas não sustentou. Os guardas entraram e fizeram uma busca. Não acharam nada. As três velhas, ainda ofendidas, mandaram todos embora. A família ficou sem seu corpo.

Algumas outras vezes ocorreram dessas acontecências. Simples suspeitas que nada provaram. E foram ocorrendo até que um certo investigador, dado a fatos assim estranhos, resolveu pesquisar sobre o assunto. Cinco famílias queixavam-se do sumiço de seus corpos. As três velhas choravam uma média de dois velórios por dia. Cinco corpos seriam pouco para a alimentação delas. O investigador resolveu abrir sepulturas antigas, pelos mortos das quais, haviam elas chorado. Com os consentimentos devidos, iniciou sua pesquisa. As velhas já haviam até sido entrevistadas. Choraram na entrevista para fazer propaganda dos seus serviços e conseguiram comover boa parte da audiência. A cidade tomou conhecimento das investigações e tomou partido. Facções a favor e contra as velhas. Fizeram comerciais de rádio e televisão. E enquanto isso, assistido por testemunhas, o investigador abria os túmulos e provava que diversos corpos chorados por aquelas senhoras se haviam sumido. Foram enterrados sem estarem lá e ninguém sabia onde estavam, por quem foram roubados e para que serviriam.

As mulheres choradeiras, desde então reveladas, sem provas objetivas, mas reveladas. Antropófagas por convicção, em estado perfeito de juízo, em razão plena da sua alimentação. Davam sempre seu jeito de hipnotizar as pessoas com seu choro e dali tirar, ante o sono de todos, o seu almoço. As mulheres choradeiras, ainda assim, poucos revezes tiveram com isso. O mais que lhes aconteceu foi deixar de conseguir trabalho. Temidas e odiadas. Nada provado, no entanto. Por tempos ficaram desempregadas. Para se alimentar, nesses tempos, talvez atacassem diretamente os cemitérios, talvez atacassem mesmo pessoas vivas, mas, para isso, já não tinham o vigor de anos antes.

O investigador as havia vencido, ele. Era isso questão verdadeira. Elas eram justas e não lhe guardavam rancor. Ele se havia interessado pelo caso das choradeiras; as admirava. Tornaram-se amigos e um dia foi ele convidado a visitá-las. Elas lhe mostrariam suas receitas. Comiam mesmo até os ossos. Explicariam a intenção do aeroplano. Amigos. Ele foi e isso se tornou o grande erro da sua vida.

As três mulheres choradeiras, vivendo, chorando.

(CASTRO, Fábio. Terra dos Cabeçudos. Pará: Lugráfica, 1987.)


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