27 de outubro de 2017

Alunos com vocação poética para o Festival da Cultura Negra

No dia 26 de outubro de 2017 houve a primeira reunião com os alunos da poesia Andreyna Serrão da Costa, Carla Rubia Siqueira Braga, João Victor Pinheiro do Nascimento, Ludmila Paiva Carneiro, Matheus Messias Farias Machado e Rafaela de Nazaré da Costa Barata. Todos são do Ensino Médio Integral (EMI) da Escola Estadual Avertano Rocha, em Icoaraci (Belém/PA).
A minha iniciativa partiu do convite da Profª Cilene Moraes, que atua na Biblioteca Escolar Prof. Benedito Sérgio Magina.
Os estudantes produzirão textos em versos sobre "O Trabalho Escravo". Os poemas serão apresentados em varal e recital durante o II Festival da Cultura Negra da escola, que acontecerá no dia 24 de novembro (Semana da Consciência Negra).
O grupo aumentará com a participação das turmas da profª Nádia Beatriz Damasceno.

Alunos (da esquerda): Ludmila Paiva, João Victor Pinheiro, Matheus Messias Farias e Carla Rubia Siqueira,
com os professores João Jorge Reis e Cilene Moraes.


22 de outubro de 2017

As Mulheres Choradeiras: o conto e o filme

Atividade realizada como oficina no Ensino Médio Integral da Escola Estadual Avertano Rocha.
Período e turmas;
28/08/2017 - 101
29/08/2017 - 104
30/08/2017 - 102
01/09/2017 - 103

CONTO

As Mulheres Choradeiras

Fábio Castro

Seguindo a rua na direção que saia dos ladrilhos e se torne terra, encontra-se as três casas, ruínas, casas das três velhas. Três mulheres que vão mais longe que os cento e oitenta anos possíveis a um ser humano. Três casas e o fim da rua. Ninguém vai mais longe e nem mesmo ali se quer ir. As três velhas e suas casas tortas, que se saiba, não tinham parentes. Possuíam uma horta de vegetais esquisitos que não se conhece se eram de comer ou eram de enfeitar. O que se dizia, embora com medo de dizer, é que o que comiam era carne de gente, mesmo, humana; a de dentro e a de fora. Eram verdadeiras górgonas, as três velhas. Mas disso só se dizia. De verdade, como saber? Só indo até lá para ver. Ver e guardar o visto só para si, pois dessa visão viria o problema de voltar de lá. Fora disso, para viver nos outros hábitos, para comprar e pagar contas, tinham elas o seu trabalho, a sia profissão. Eram profissionais coerentes e ordeiras. Tinham o trabalho lírico de chorar em velórios e enterros. Eram contratadas assim, de dramatizadoras, de choradeiras. Choravam em vários tons e timbres, faziam gestos e expressões faciais, rezavam musicadamente e suspiravam com certos intervalos. Disso viviam. Viviam chorando. Seu pranto emotivava, passeava no ambiente, fazendo novas lágrimas; todos diluviavam. Da justeza desse seu fazer elas economizavam os restos de seus ordenados para a impressão de um dia vierem a comprar um aeroplano. De sonho queriam, queriam tanto, voar. Seria de aeroplano que voltariam um dia ao seu planeta de origem. Seria. Agora, no ter do hoje de juntar dinheiro, a sua profissão de choradeiras trabalhando aos poucos. Pressa não tinham, o tempo passeava de acordo com a sua lenta biologia.

Eram esses seus afazeres.

As mulheres choradeiras, como de hábito lhes chamavam, pareciam não ter ambição de erguer seu escasso capital. Desprovidas de ambições, pessoas boas, mesmo que perigosas. Acumulavam dinheiro havia anos e ainda faltava o bastante para o preço do aeroplano. Estavam em atenção permanente de vigília, para o caso de aparecer um serviço. Se aparecia, corriam a oferecer seus préstimos. O preço módico e a qualidade do serviço, admirável. Ficavam encantados, os clientes, com a dedicação das velhas ao trabalho. Com a sua técnica perfeita, com os momentos máximos da união de todas as expressões do corpo, com a emotividade que despertavam nos presentes.

Seus fazeres eram cumpridos com afinco, e embora algumas pessoas lhes tivessem medo de virar comida, a maioria também lhes dedicava certo carinho, certa atração. O medo parecia ser injustificado, parecia. Nada de suspeito tinha seu lixo. Se comiam gente, mesmo, devoravam até os ossos, tudo. Mas isso era improvável, e tanto, que com o tempo nem mais se falava de dúvida sobre a antropofagia daquelas senhoras. Por um tempo não se comentou nada sobre seus hábitos, mas houve um dia que as suspeitas voltaram. As três casas, das três choradeiras, amanheceram cercadas dos familiares dum morto. O corpo sumira no velório da tarde anterior e suspeitavam que elas o haviam roubado. Um capelão vira três vultos puxando pela escadaria da igreja um objeto estranho, dentro dum saco de pano. Puxavam com certa dificuldade, pois era meio obeso o corpo. Decerto, suculento. Valeria aquele esforço. Além do mais, com a escada seria fácil rolá-lo até embaixo e pegar um táxi para casa.

No dia seguinte amanhecia a casa cercada dos familiares do homem sumido. Exigiam uma revista, senão, chamariam a polícia. Tinham de fazer o enterro e já quase se atrasavam. As velhas, no entanto, achavam um desaforo; não endossavam o boato de serem comedoras de carne humana, ainda mais ladras de velório. Fecharam as portas e janelas e armaram uma barricada. Veio a polícia. A defesa delas não sustentou. Os guardas entraram e fizeram uma busca. Não acharam nada. As três velhas, ainda ofendidas, mandaram todos embora. A família ficou sem seu corpo.

Algumas outras vezes ocorreram dessas acontecências. Simples suspeitas que nada provaram. E foram ocorrendo até que um certo investigador, dado a fatos assim estranhos, resolveu pesquisar sobre o assunto. Cinco famílias queixavam-se do sumiço de seus corpos. As três velhas choravam uma média de dois velórios por dia. Cinco corpos seriam pouco para a alimentação delas. O investigador resolveu abrir sepulturas antigas, pelos mortos das quais, haviam elas chorado. Com os consentimentos devidos, iniciou sua pesquisa. As velhas já haviam até sido entrevistadas. Choraram na entrevista para fazer propaganda dos seus serviços e conseguiram comover boa parte da audiência. A cidade tomou conhecimento das investigações e tomou partido. Facções a favor e contra as velhas. Fizeram comerciais de rádio e televisão. E enquanto isso, assistido por testemunhas, o investigador abria os túmulos e provava que diversos corpos chorados por aquelas senhoras se haviam sumido. Foram enterrados sem estarem lá e ninguém sabia onde estavam, por quem foram roubados e para que serviriam.

As mulheres choradeiras, desde então reveladas, sem provas objetivas, mas reveladas. Antropófagas por convicção, em estado perfeito de juízo, em razão plena da sua alimentação. Davam sempre seu jeito de hipnotizar as pessoas com seu choro e dali tirar, ante o sono de todos, o seu almoço. As mulheres choradeiras, ainda assim, poucos revezes tiveram com isso. O mais que lhes aconteceu foi deixar de conseguir trabalho. Temidas e odiadas. Nada provado, no entanto. Por tempos ficaram desempregadas. Para se alimentar, nesses tempos, talvez atacassem diretamente os cemitérios, talvez atacassem mesmo pessoas vivas, mas, para isso, já não tinham o vigor de anos antes.

O investigador as havia vencido, ele. Era isso questão verdadeira. Elas eram justas e não lhe guardavam rancor. Ele se havia interessado pelo caso das choradeiras; as admirava. Tornaram-se amigos e um dia foi ele convidado a visitá-las. Elas lhe mostrariam suas receitas. Comiam mesmo até os ossos. Explicariam a intenção do aeroplano. Amigos. Ele foi e isso se tornou o grande erro da sua vida.

As três mulheres choradeiras, vivendo, chorando.

(CASTRO, Fábio. Terra dos Cabeçudos. Pará: Lugráfica, 1987.)


FILME



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